Entrevista: novo diretor das POM fala sobre a “transformação missionária da Igreja”

 


A Congregação para a Evangelização dos Povos nomeou o padre Maurício da Silva Jardim, 46, do clero da arquidiocese de Porto Alegre (RS) diretor das Pontifícias Obras Missionárias (POM) no Brasil, para os próximos cinco anos. A notícia foi divulgada na Quinta-feira Santa, dia 24 de março.
Em sintonia com o papa Francisco, padre Maurício acredita na “transformação missionária da Igreja”. Para isso, aposta na conversão, da pastoral de manutenção para uma “pastoral decididamente missionária”.

Natural de Sapucaia do Sul (RS), Maurício é o sexto e último filho do casal Honório Corrêa Jardim (falecido) e Cecy da Silva Jardim. Ingressou no seminário São José de Gravataí (RS) em 1991, com 21 anos. Cursou filosofia e teologia no seminário maior de Viamão, e mais tarde fez pós-graduação em psicopedagogia. Ordenado padre em 1999, trabalhou durante três anos e meio em Moçambique. Na arquidiocese de Porto Alegre foi coordenador da pastoral presbiteral e animador vocacional.

Em entrevista à assessoria de comunicação das POM, o novo diretor conta como recebeu a nomeação e quais são suas expectativas ao assumir esta nova missão.


Padre Maurício, como recebeu a notícia da nomeação para diretor das POM no Brasil?
Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, me chamou na quarta-feira santa para conversar. Ao entrar em sua sala, retirou da gaveta dois documentos: um em latim assinado pelo cardeal Fernando Filoni, prefeito da Congregação para Evangelização dos Povos. O título do documento dizia: Decretum e logo abaixo a nomeação de diretor nacional das POM para um período de cinco anos (2016-2021). O outro documento vinha do núncio apostólico dom Giovanni, comunicando o decreto e solicitando ao arcebispo que comunicasse ao interessando a nomeação. Lendo os dois textos, achei que deveria pedir alguns dias para rezar e discernir a nomeação e assim sai da sala confiante. Doze horas após me telefonou o arcebispo perguntando-me se já havia rezado e discernido, pois desejava publicar no dia seguinte para o clero, na quinta-feira santa, missa do Crisma. Neste mesmo dia de dúvida e medo, reli um pensamento de dom Helder Câmara: “Aceita as surpresas que transformam teus planos, derrubam teus sonhos, dão rumo diverso ao teu dia e, quem sabe, à tua vida. Não há acaso. Dá liberdade ao Pai, para que Ele mesmo conduza a trama dos teus dias”. Assim acolhi esta nomeação como um serviço missionário. Abraço com confiança ilimitada em Deus que chama e envia.

Quais as suas expectativas para esta nova missão?
Com o magistério do papa Francisco, o momento atual na Igreja é privilegiado com grande ênfase missionária. Me sinto afinado e motivado com suas palavras e gestos. Ele, na exortação apostólica Alegria do Evangelho deixa claro já no primeiro capítulo que deseja a “transformação missionária da Igreja” e apresenta a exortação como “indicação de caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”. É um documento programático que me alegra, motiva e dá forças para olhar para frente com esperança. Minha expectativa é continuar bebendo da fonte no encontro com o ressuscitado numa vida diária de oração e escuta da Palavra de Deus, cultivando a fé, partilhando a vida e missão em equipe de trabalho com os secretários das POM e funcionários, mantendo a centralidade em Jesus Cristo e seu Reino. Acredito que deste encontro e escuta, brota toda animação missionária de comunicar o que se experimentou. Sair e não ficar parado ou estacionado, esperando em casa que outros venham. Sair com o princípio da misericórdia, tocando as chagas, indo às periferias e deixando-se tocar e evangelizar pelos que sofrem. Me encanta, compartilhar a vida num movimento de dar e receber: “Encontrados para encontrar. Amados para amar. Perdoados para perdoar”, como repete o papa Francisco.

Na realidade, tenho muitas as expectativas e sonhos. Todos numa direção de comunhão com os setores, organismos, comissões, forças missionárias da Igreja no Brasil. Gostaria de dar continuidade ao grande trabalho que vem realizando o atual diretor padre Camilo Pauletti, sobretudo pelo seu testemunho de vida dedicado à causa missionária. Mesmo diante da fragilidade na saúde não mediu esforços para que a consciência missionária crescesse no Brasil. A ele sou muito grato pela dedicação.

Na sua opinião, quais seriam os principais desafios da missão hoje?
Há muitos desafios missionários. O primeiro creio que seja a conversão pastoral já dito em Santo Domingo em 1992 e retomado em Aparecida em 2007. O que significa esta conversão? Remete à superação de uma pastoral de conservação e manutenção para uma “pastoral decididamente missionária”. O papa Francisco no discurso aos dirigentes do CELAM, em 28 de julho de 2013 diz: “a mudança de estruturas de caducas a novas é consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade”. E como se dará isto? Desencadeando processos que coloque todos organismos, comissões, pastorais, movimentos, serviços, dioceses, prelazias, paróquias e comunidades em chave missionária.

Há vários desafios missionários: o fortalecimento e crescimentos das Igrejas irmãs, onde uma diocese pode oferecer de sua pobreza às regiões mais necessitadas de padres, religiosos (as) e cristãos missionários. Há ainda desafios dos migrantes que chegam ao Brasil sem estruturas adequadas para acolhida e encaminhamento. Há ambientes de missões nos grandes centros urbanos e periferias onde se pode propor grupos de Infância e Adolescência Missionária (IAM) e Juventude Missionária. Outro desafio grande é ampliar a presença da Igreja entre os povos indígenas da Amazônia legal. Também um indicativo importante é desencadear processos de índole missionária, focando mais em percursos do que simplesmente cursos, embora a formação seja outro grande desafio. Desafios e lugares de missão não faltam.


Como avalia a Igreja no Brasil com relação à cooperação missionária universal?
A Igreja do Brasil que tanto recebeu missionários europeus e ainda recebe, creio que poderia ser mais ad gentes. Há iniciativas consolidadas, cito projeto do Regional Sul 3, do qual sou parte e fui enviado para cooperar com a diocese de Nampula, no norte de Moçambique por três anos e meio. Sei também de outras iniciativas além fronteiras como a do Regional Sul 2 na Guiné Bissau. No entanto, precisamos nos abrir mais, ser mais generosos e dar de nossa precariedade para que possa acontecer o sinal da multiplicação, como no Evangelho a oferta da criança de cinco pães e dois peixes. Deus não se deixa vencer em generosidade, mas há uma parte que precisamos fazer. Continua este desafio de enviar missionários (as) para outra margem, em países onde ainda há cristãos com o mínimo de atendimento, passando anos sem terem a possibilidade da celebração eucarística. Os lugares que mais carecem de missionários (as) no mundo são os ambientes pobres e periféricos. Eis o desafio da cooperação missionária.

Que mensagem teria para as lideranças envolvidas na animação missionária das Obras no Brasil?
Quero recordar que no caminho da Anunciação até a Ressurreição havia um ambiente de medo nas discípulas (os), contudo a mensagem é a mesma: “Não tenham medo”. Também outra palavra presente no início e no fim do percurso é: “Alegrai-vos”. Gostaria de expressar a todos que participam e contribuem com as Pontifícias Obras Missionárias estas duas palavras: Não tenham medo e alegrai-vos. Mesmo diante de tantos desafios somos pessoas de esperança, acreditamos que a vida vence a morte. Podemos dar de nossa precariedade para acontecer a multiplicação.

Gostaria de encontrá-los(as) neste percurso de cinco anos na direção das POM, indo até onde vocês vivem ou nos caminhos da missão. Por último recordo a frase de Leão XIII: “Missão se faz com os joelhos dos que rezam, as mãos dos que doam e os pés dos que partem”. Abraço fraterno, na comunhão de uma Igreja em permanente estado de missão.

Por Jaime C. Patias   
14 / Abr / 2016 22:18

 

 

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