Que a Palavra ouvida se torne Palavra vivida!

(Ne 8,2-10; Sl 18b/19b; 1Cor 12,12-30; Lc 1,1-4; 4,14-21)

A própria Sagrada Escritura nos apresenta belas e abundantes passagens que sublinham a importância da Palavra de Deus e elogiam sua fecundidade. O Salmo 18/19 recorre a várias metáforas para ilustrar seu dinamismo: os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; seus mandamentos são como luz que orienta; as decisões do Senhor são verdadeiras e justas; seus projetos são preciosos como o ouro e doces como o mel. Graças a Deus, a atenção à Palavra de Deus tem crescido em nossas comunidades, a ponto de a Bíblia ser hoje uma das principais fontes da espiritualidade cristã e da ação pastoral. Neste domingo, Lucas nos toma pela mão e nos leva à sinagoga de Nazaré. Lá Jesus nos inicia na leitura e na prática da Palavra de Deus, mostrando-nos seu núcleo mais vivo e transcendente.

“Jesus voltou para a Galiléia com a força do Espírito.”

Na pessoa de Jesus Cristo, Espírito e Palavra coincidem com exatidão. Pregação e ação, promessa e presença também se identificam. Tendo sido concebido por obra e graça do Espírito Santo, por ocasião do batismo Jesus é também ungido pelo Espírito e se subordina publicamente à sua inspiração. Conduzido pelo Espírito, vai ao deserto e enfrenta e vence as tentações. É sob o influxo deste mesmo Espírito que Jesus deixa o deserto para inserir-se nas lutas e tradições do seu povo.

Fundamentando-se nas informações de testemunhas oculares e querendo oferecer-nos uma narração ordenada dos acontecimentos históricos que envolveram Jesus, Lucas nos comunica que Jesus iniciou sua vida pública nas sinagogas dos povoados da Galiléia. Sua ação é como a de um mestre e reformador eloqüente e experimentado. Mas Jesus de Nazaré não pretende simplesmente negar as instituições da sua religião e começar tudo de novo. “Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam.”

O mesmo Espírito que faz Jesus crescer na consciência de ser filho amado e servo enviado, também o leva à inserção na caminhada religiosa e política do seu povo. E ele começa pela Galiléia dos suspeitos e pelos lugares onde a Palavra de Deus era lida e meditada: as sinagogas. O mesmo Espírito que suscita a Palavra nos conduz a ela, abre nossos ouvidos e adestra nossas mãos para a luta. Mas, atenção: a Palavra de Deus não se indentifica simples e diretamente que aquilo que temos escrito na Bíblia!

“Conforme seu costume, no sábado Jesus entrou na Sinagoga.”

Jesus freqüentava a sinagoga com seu povo, e isso era um hábito, e não algo que fazia esporadicamente. O evangelista diz que isto era um costume de Jesus. E não se trata de uma ação meramente estratégica ou exemplar, mas de uma atitude referencial de busca e de escuta. Numa palavra, uma postura de discípulo. Como qualquer pessoa que se põe nos caminhos de Deus, Jesus necessitava de um horizonte e de uma referência para sua vida e sua missão. Pela Palavra de Deus, saberemos por onde andar...

Como havia ocorrido no batismo, também na Sinagoga, apesar da sua crescente fama, Jesus se apresenta como mais um no meio do povo. Sedento e faminto das promessas mais incríveis de Deus, ele busca orientação na Palavra de Deus. “E levantou-se para fazer a leitura.” Habituado à escuta da Escritura Sagrada, Jesus busca luzes na profecia de Isaías. Procura diligentemente e encontra a passagem na qual o profeta tenta suscitar a esperança num povo radicalmente desesperançado.

Como havia feito Esdras no passado, Jesus lê a palavra que Deus suscitara mediante o profeta “para todos os homens e mulheres e todos os que tinham uso da razão”. Mas lê também para si mesmo, ou melhor, busca nela uma orientação pessoal para melhor entender sua missão. É escuta e da docilidade à Palavra de Deus, que grita também nos sinais dos tempos, que nos vem a força para romper com a passividade e aceitar a missão. A Palavra de Deus não pode passar por nós sem deixar um sinal...

“O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me consagrou.”

O mesmo Espírito que inspira as Escrituras consagra e envia os profetas para recriar os vínculos que reunir um povo. “Para anunciar a Boa Notícia aos pobres; para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor.” Longe de inspirar apenas associações piedosas, canções novas e santuários bizantinos, o Espírito vincula seus ungidos/as a uma missão historicamente engajada e relevante, sempre em favor dos últimos.

É com o sopro da Palavra que Deus gera seus profetas e profetizas. É da familiaridade com a Escritura que nascem os agentes de Deus no mundo. Os ouvidos que ousam sintonizar com a Palavra de Deus não conseguem fazer-se surdos aos clamores dos últimos, sejam eles chamados de pobres, presos, cegos ou oprimidos. Tendo diante de si aqueles/as que são considerados/as e tratados/as como últimos da escala social, os/as ungidos/as de Deus pelo batismo anunciam a eles boas notícias.

“Para proclamar um ano da graça do Senhor...”

Jesus desenvolveu sua missão evangelizadora num tempo em que a gratuidade não estava em alta. Os invasores romanos exigiam tributos mesmo às custas da miséria do povo, e os sacerdotes do templo cobravam a reparação ritual até das faltas mais irrelevantes. Para os dirigentes do judaísmo, os pecados e impurezas deveriam ser pagos sem desconto algum. A pregação do perdão pelo arrependimento era coisa muito recente e suspeita, sustentada apenas pelo profeta que batizava nas margens do rio.

Para a religião judaica, pobres, presos, cegos e oprimidos eram pecadores e, por isso, devedores. Ou o seria o inverso? Jesus vai à Sinagoga para resgatar uma esperança popular enraizada na própria escritura e para questionar a pregação oficial. Ele entende que sua missão é anunciar que chegou o tempo do jubileu, do cancelamento de todas as dívidas, da remissão de todos os pecados. Para Jesus, Deus não é nem delegado de polícia, nem agente do Serviço de Proteção ao Crédito.

A liturgia da Palavra nos lembra que, já no Antigo Testamento, a função da Palavra é gerar vida e suscitar alegria. Depois de ouvir de pé a leitura e a interpretação da Palavra de Deus por Esdras e pelos levitas, o povo começou a chorar. “Hoje é dia consagrado a Javé, Deus de vocês. Não fiquem tristes e parem de chorar!” O Evangelho é, literalmente, uma boa notícia. Por isso, não pode ser reduzido a uma pesada e sofisticada doutrina moral, imposta a um povo já cansado e abatido.

“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura.”

Junto com a tentação de reduzir o Evangelho a um conjunto de regras morais, corremos, pelo menos, outros dois riscos: tratá-lo como edificante acontecimento do passado ou aprisioná-lo num futuro hipotético e incerto. Efetivamente, a Boa Notícia de Jesus Cristo não é algo que aconteceu e se esgotou no tempo que se chama ontem, nem uma mensagem desencarnada para um tempo que ainda não veio e para um lugar que se chama alma ou céu.

A ‘homilia’ que Jesus fez sobre a profecia que acabara de ler foi breve e concreta. “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.” A comunidade, que estava como que suspensa diante da proclamação da Palavra e tinha os olhos fixos no jovem pregador, foi por ele chamada ao presente concreto. Como ouvinte habitual da Palavra de Deus, Jesus percebe que o tempo está maduro e que Deus se dirige a ele. O filho amado é também o profeta e reformador esperado.

A Palavra proclamada opera pela palavra encarnada e se realiza na ação engajada. É importante que a Palavra de Deus proclamada na liturgia seja explicada pelos/as ministros/as (ordinários/as ou extraordinários/as, pouco importa) e leve a assembléia a louvar, a suplicar e a pedir perdão. Mas se a profecia não se realizar no engajamento pessoal e comunitário nas lutas e movimentos de emancipação e libertação, será apenas meia-palavra, ou palavra vazia.

“Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento...”

Busquemos alimento e orientação na Palavra de Deus. Se Jesus teve necessidade da Escritura, quem somos nós para deixá-la de lado ou usá-la apenas como ‘instrumento de trabalho’? A tragédia que se abateu sobre o povo do Haiti há três anos continua nos comovendo e fazemdo lembrar que os diferentes povos e nações não são senão diferentes membros de um mesmo corpo. E quando um membro sofre, todos sofrem e precisam sair da passividade. Mas sem esquecer que esta tragédia não pode ser vista isoladamente. A tragédia maior e mais dolorida é a indiferença do mundo diante da miséria que, tendo sido gerada no maldito ventre do colonialismo, há séculos martiriza o povo haitiano.

Pe. Itacir Brassiani msf

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